Virgínia Alves
Virgínia Bárbara de Aguiar Alves, é Doutora em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pelo Departamento de Comunicação e Artes da Universidade de Aveiro - UA em convênio com a Faculdade de Letras – FLUP da Universidade do Porto – UP (Portugal, 2012). Mestre em Ciências da Informação pela Universidade de Brasília - UnB. Especialista em Administração de Recursos
Humanos. Especialista em Formação de Técnicos de Recursos Humanos. Especialista em Administração Pública/Organização. Bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal da Bahia - UFBA. Foi professora substituta na Universidade Federal da Bahia/Instituto de Ciências da Informação, atuando principalmente nas seguintes áreas: biblioteconomia, bibliotecas especializadas, públicas e universitárias, preservação e conservação. Foi também Coordenadora do Curso de Biblioteconomia/UFAL e professora Adjunta no mesmo curso. Líder do grupo de pesquisa Informação & conhecimento (CNPq), Conselheira da Associação dos Bibliotecários Alagoanos no período de 2006 a 2007. Trabalhou como bibliotecária nas seguintes instituições: Escola de Administração Fazendária - EAF; Fundação para o Desenvolvimento do Servidor Público - FUNDESP; Biblioteca Pública do Estado da Bahia; Arquivo Público do Distrito Federal.
Inforbiblio – Como surgiu a ideia de transformar sua tese em livro?
Virgínia Alves – Era um desejo antigo, desde
quando terminei o doutorado em 2012, porque foi um trabalho muito árduo, não
queria que se perdesse. Foram praticamente quatro anos, um trabalho cotidiano
com a orientação de duas professoras, eu queria publicar essa pesquisa e
disseminá-la entre um maior número de pessoas possível. Também pela importância
do tema, são poucas publicações (livros) que existem em língua portuguesa ainda
nessa área. Aliás, vou fazer outra afirmação, são pouquíssimas publicações em
forma de livro que existem no Brasil, desse assunto que é relativamente novo, é
muito recente.
Inforbiblio – É pouco discutido
mesmo, inclusive uma ex-aluna sua, comentou comigo que nunca conseguiu entender
direito o que é Open Archive.
Virgínia
Alves – O Movimento do Acesso Livre (Open Access), foi cunhado assim pelos
mentores desse movimento no Brasil e em Portugal. Essa terminologia é muito
defendida entre luso-brasileiros. O Open
Access é um movimento internacional
que congrega milhares de profissionais da área de Ciência da Informação e da
Comunicação Científica em prol da livre disseminação da informação científica
produzida em qualquer ambiente, mas sobretudo nas universidades para que sejam
disponibilizadas a qualquer pessoa. Quando um pesquisador, independentemente de
qualquer instituição, submete-se ao mestrado ou ao doutorado, logo concorre a
uma bolsa, geralmente aqui no Brasil essas bolsas são proporcionadas pela
CAPES/CNPq. No exterior tem outras instituições de fomento. Não é justo que
depois de receber bolsa para estudar/pesquisar, esse pesquisador, ponha o resultado
da sua pesquisa um alto custo, obrigando as universidades a pagar para ter
acesso a esse resultado de pesquisa. Então, esse Movimento defende justamente
isso, já que recebeu uma bolsa para desenvolver determinada pesquisa, nada mais
justo que disponibilizá-la para que todos tenham acesso ao resultado dessa
pesquisa.
O Open Archive – é uma ferramenta que deu
possibilidade ao Open Access evoluir.
Sintetizando, é uma ferramenta que foi criada para facilitar a
interoperabilidade, que estabelece os mecanismos ideais para que seja possível
a comunicação entre repositórios e bibliotecas digitais, sem interferência.
Inforbiblio – Fale um
pouco sobre os e-prints (pré-prints e pós-prints)
Virgínia Alves – pré-print é um texto/documento que você encaminha para as revistas,
editoras. É um texto genuíno, tal qual como você o produziu e ainda não foi
publicado. O pós-print é o
texto/documento que já foi avaliado pelos pares ou comitê de avaliação dessa
revista ou editora, sendo este aprovado ou rejeitado.
Inforbiblio –
Explique-nos sobre o Autoarquivamento - Via Verde/ Via Dourada.
Virgínia
Alves – Como sempre dizemos e percebemos,
as grandes contribuições e grandes iniciativas nessa área de Biblioteconomia, geralmente
parte de outros que não são bibliotecários, como Bastos Tigre, por exemplo.
Talvez pelo poder ou pelo idealismo? Acredito que é o caso do acesso livre, foi
proposto por um psicólogo Stevan Harnard, no livro está bem descrito como
aconteceu o surgimento do acesso livre.
A Via
Verde foi denominada assim pelo Stevan Harnad, pesquisador da área de
Psicologia de uma importante universidade americana. Indignado com o processo
de seleção/avaliação de várias editoras, que inclusive, cobram em dólar para
publicar, Harnad pensando muito em resolver essa situação, em uma lista de
discussão online sobre revistas
eletrônicas, da qual participavam pesquisadores internacionais, inclusive
ganhadores de Prêmio Nobel, como também bibliotecários e editores, propôs uma
subversão e sugeriu aos pesquisadores que trocassem seus trabalhos livremente
na internet, como aconteceu com os primeiros artigos na área de Física. Muitas
vezes os trabalhos de iniciantes são rejeitados, como em qualquer ambiente,
existe um certo pacto ou acordo.... Os pesquisadores que estavam cansados de
tanta burocracia, de ter que esperar seis meses ou mais para obter resposta do
seu trabalho enviado, aderiram a proposta.
A Via
Verde é o autoarquivamento, é você tomar a decisão por si só de publicar sua
pesquisa. Por exemplo: a UFAL tem um repositório, a Universidade de Brasília
tem também um repositório, então o pesquisador dessas instituições livremente
disponibiliza seu trabalho para que outros pesquisadores acessem essa pesquisa
em sua íntegra. Daí, acontece o ciclo da informação. Quanto mais informação
tivermos, mais poder teremos.
A Via
Dourada representa os periódicos de acesso livre, aqueles sem nenhuma
restrição. Como já acontece na Ciência da Informação, publicada pelo Instituto
Brasileiro de informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), no caso qualquer
pesquisador tem livre acesso à essa revista. Foi um passo muito grande porque,
o IBICT apoiou imensamente esse movimento aqui no Brasil.
Inforbiblio – Lendo
seu livro eu descobri que quantitativamente o Brasil ocupa o 4º lugar em
repositórios. Na questão do acesso livre (open
access), ficamos à frente da Austrália, Japão e Itália. O que tornou isso
possível?
Virgínia Alves – Tem em torno de 10 (dez) anos que
esse movimento chegou ao Brasil e o IBICT publicou artigos de revista que
tratavam do acesso livre, para que as pessoas conhecessem e entendessem esse
Movimento. O IBICT é um defensor da causa. Porque só alcançaremos o
desenvolvimento tecnológico se tivermos educação de qualidade e sobretudo
informação científica. Pois conhecimento e informação são primordiais, para não
continuarmos sempre dependentes das informações e das tecnologias de outros
países. A educação é o grande pilar. Se tivéssemos uma educação bem
estruturada, com planejamento, com objetivos bem esclarecidos. Com certeza a
educação brasileira se encontraria em outro patamar.
Através
do IBICT, o governo federal apoiou bastante o movimento, não só com divulgação,
mas também buscando recursos através de projetos, para serem implantados kits
básicos, para que todas as universidades federais brasileiras instalassem seus
repositórios institucionais. Isso foi uma grande conquista, um avanço, um
grande passo para que o Brasil chegasse ao estágio em que se encontra hoje em
relação ao acesso livre.
Inclusive por causa da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e
Dissertações (BDTD), que já existia independente dos repositórios
institucionais.
Por outro
lado, não podemos esquecer das convenções periódicas, do esforço de grandes
pesquisadores em várias universidades brasileiras que trabalham e são
fascinados por essa causa e se ocupam muito dessa temática. Temos que lembrar
também da importância de instituições como a Biblioteca Regional de Medicina
(BIREME), da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP), o Portal SciELO,
da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da
Informação e Instituições (FEBAB), e do Portal de Periódicos CAPES.
Virgínia Alves – Sabemos que a internet é um
instrumento fantástico de comunicação para o livre acesso, em todos os
sentidos, em todos as áreas. Não sei se depois da internet, vai surgir outra
coisa assim que possa criar um impacto tão grande, com esse poder de comunicação
tão veloz e tão instantâneo. É fascinante o fato de todo o mundo poder estar
conectado ao mesmo tempo recebendo a mesma informação simultaneamente. Para
administrar toda essa informação, existe um comitê que estabelece normas e
regras para assegurar e/ou orientar as informações publicadas na internet para
as pessoas se conscientizarem que, embora possa parecer, a internet não é um
campo livre.
O IGF é
um multifórum com reuniões periódicas, para tratar da política da internet. São
tratadas as questões de segurança, privacidade, direitos autorais, Esse
multifórum também trata de questões da língua. O português ainda não tem o
mesmo alcance que a língua inglesa e a espanhola, então trabalha-se para
aumentar a visibilidade das informações publicadas em língua portuguesa.
Inforbiblio – Agora a
sociedade da Informação torna-se também inclusiva?
Virgínia
Alves – Sempre foi. Mas, infelizmente pelos últimos acontecimentos,
parece que estamos regredindo ao invés de avançarmos. Estamos literalmente
dando passos para trás. Isso é um problema sério. Eu me lembro muito bem,
quando foi lançado o livro verde. Eu considero um trabalho belíssimo. Com a
participação de pesquisadores renomados, intelectuais, estudiosos e
representantes de todas instituições brasileiras. Tinha projetos que constavam
nesse livro, para que a informação e o avanço tecnológico tomassem outra
dimensão no país, que infelizmente ficaram só no papel.
Inforbiblio – Como
foi o processo de coleta de dados, já que a senhora se encontrava em Portugal,
mas o foco da sua pesquisa era as universidades do nordeste brasileiro?
Virgínia Alves – Foi muito difícil, mesmo porque
eu fui questionada por isso. A universidade portuguesa não entendia a minha
escolha e me indagava sobre o fato de estar em Portugal, mas dedicar minha
pesquisa ao Brasil. Até que eu consegui convencer um dos meus orientadores e
ele me disse assim... “Então você não investigará o Movimento de acesso livre,
mas sim, o impacto desse Movimento no Brasil”. Por sorte minha, eu já havia começado
a estudar as ações do IBICT, entre outras ações independentes de pesquisadores,
o Projeto de Cooperação Luso-brasileira, a carta da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC), a carta do Rio de Janeiro, as decisões de apoio em
congressos e tudo mais. Então eu investiguei
o impacto desse movimento sobre pesquisadores da área de Biblioteconomia das
universidades federais que compreendem a região nordeste.
Encontrei
várias dificuldades durante a coleta de dados. Em contrapartida, encontrei muitas
contribuições entre alunos, centros acadêmicos, professores e coordenações de
cursos. Inclusive eu faço um agradecimento especial no livro, por exemplo, o
centro acadêmico da Universidade Federal do Cariri no Ceará, as alunas tiveram
muito zelo ao retornarem o questionário para mim. Eu fiquei muito grata com a
solidariedade delas.
O que me
deixou muito feliz também foi detectar que a maioria dos professores
investigados tinha conhecimento sobre o livre acesso, além de apoiar e defender
essa questão.
O uso dos
repositórios em sua plenitude será uma conquista, mesmo. As pessoas têm que se
educarem para começar essa prática até que ela se torne constante e se
transforme em um ato corriqueiro.
Inforbiblio – Esse
mesmo impacto foi sentido aqui na Universidade Federal de Alagoas?
Virgínia Alves – Por parte dos alunos, nem tanto,
mas os professores têm o conhecimento. Mesmo porque, através da professora
Suely Costa da Universidade de Brasília e do professor Hélio Kuramoto que era o
tecnólogo sênior do IBICT, foi realizada uma videoconferência instantaneamente
para todas as universidades do Brasil, solicitando que todos os pesquisadores
aderissem a esse Movimento. Foi um desafio conseguir montar todo esse aparato
para realizar essa transmissão.
Além do manifesto
em prol do Acesso livre, a Revista da Ciência da Informação publicou vários
artigos sobre esse tema. Foi criada a Liinc em Revista, só para tratar do tema do
acesso livre.
Virgínia Alves – Como sou bibliotecária, eu afirmo
que a informação é imprescindível. Concordo plenamente com os mentores do
Movimento no Brasil, se não tivermos conhecimento, não chegaremos a lugar
nenhum. Então quando mais pudermos produzir, quanto mais pudermos divulgar,
mais conhecimentos iremos adquirir e consequentemente iremos atingir um alto nível
em relação a tecnologia.
Inforbiblio – Obrigada
professora, por dar ao Inforbiblio essa chance de disseminar o seu trabalho e
de certa forma incentivar esse Movimento do Acesso Livre.
Virgínia Alves – Eu fico muito grata a você, pela
iniciativa do seu blog, por ele ser voltado para a Biblioteconomia e para a
Ciência da Informação, sempre dando oportunidade aos novos profissionais, principalmente.
Eu vejo sempre suas entrevistas, com esses jovens profissionais que estão
atuando na área. Isso é muito importante, pois não é só a universidade que
forma, existe todo um contexto que contribui para a formação dos profissionais.
O blog é sem dúvida nenhuma, um caminho, um acesso à informação importantíssimo
nos dias atuais, pois o blog é responsivo, assim como outras plataformas. E
isso facilita bastante o acesso. E agradeço a oportunidade de falar sobre o meu
trabalho que para mim é extremamente gratificante. É sempre bom falar sobre o
tema que estudamos. Foi muito bom para mim. Fiquei muito feliz com o convite.
Desejo ao seu blog sucesso e uma vida longa.

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